A bruxa da jabuticabeira

Araraquara, SP. 1947.

 

Tenho uma cliente muito boa. Paga bem e engraxa toda semana. Só não posso me atrasar nadinha, porque se chego cinco minutos depois do horário marcado ela já se foi, como aconteceu um dia. Então prometi que nunca mais me atrasaria.

Ela é alta, esguia, nariz grande, metódica e séria. Dizem que ela é bruxa. Vem sempre toda de preto, com um lenço e chapéu na cabeça e uma caixa debaixo do braço com os sapatos para eu engraxar. Por nunca ser vista aos sábados, dizem que ela está sempre em casa, ocupada com bruxaria.

 

Um dia eu estava com tanta fome, me sentindo tão fraco, que precisava de sustento para conseguir voltar a minha casa. Mas no bolso daquele dia só tinha três graxas. Se eu comprasse qualquer coisa não teria como ajudar minha mãe. Foi aí que parei na frente de uma casa e consegui avistar lá no quintal do fundo, para lá do muro, uma jabuticabeira. Mas não era qualquer jabuticabeira. Eram as jabuticabas mais cobiçadas por todos os moleques e meninas do bairro. As gigantes, carnudas e, com certeza, enfeitiçadas jabuticabas da bruxa da jabuticabeira ou dona Sabatina.

 

Neste dia não pensei duas vezes. Botei o Reizinho no chão, subi no caixote e alcancei o alto do muro com um restinho de força que usei para me forçar para cima, ralando o braço e a barriga. Sentei e me equilibrei, fazendo de minhas próprias mãos um binóculo. Avistei algo terrível: a árvore estava quase seca.

 

Observando ao redor, consegui ver uma janela e gritei ao Reizinho que me aguardava lá embaixo, apreensivo:

– Uma janela aberta! – achei por bem passar as outras informações em voz baixa mesmo – Não tem ninguém... É um quarto. Mas que estranho... tem uma cama de casal metade desarrumada e metade intocada. Amigo! Estou vendo os sapatos que se parecem muito com os que eu engraxei ontem do marido da dona...  Ih! É ela, não sabia que podia correr e parece que está chorando. Ah, uma constatação: ela também gosta de abraçar árvores.

 

Neste momento tive que largar mão do binóculo, pois um cãozinho preto de orelhas pontudas muito pequenino, pequenino demais, mas com grande cara de encrenqueiro, veio em minha direção ameaçador. Ao que sussurrei:

- Não, psiu, quietinho, não faz barulho...

O danado fez um escândalo agudo que me revelou à bruxa. Ela berrou:

- Saia daí, seu moleque! Como se atreve a subir no meu muro, seu ladrão!?

Pegou a vassoura de bruxa e veio em minha direção. Pulei do muro e arredei pé dali com medo de que ela me lançasse uma maldição.

 

Na sexta-feira seguinte fiquei com medo de ir até o banco da praça onde era nosso combinado. Por isso, quando passei do botequim do David, fiquei por ali mesmo e resolvi dividir minha preocupação com meus amigos adultos.

- Será que ela voltaria? E se ela voltasse com a polícia? Ou pior, se me transformasse em um sapo?

Só de pensar me deu um pavor que secou minha boca. Minha mão agarrou no copo do Moisés e dei uma golada. Cuspi os resquícios daquele gosto amargo de cerveja, senti uma leve tontura e caí na gargalhada.

– Não preciso ir, não é mesmo? – Os homens concordaram, rindo comigo, e fui convidado pelo Rubem a ficar ali assistindo à disputa de xadrez entre eles. Mas o Reizinho mugiu e fez boa lembrança: o aluguel!

– Mas será possível? Será que para tudo nessa vida precisa de níquel, ouro, prata?

Decidi que era melhor eu ir, e ir depressa. Soprei uma jogada ao Rubem e parti com toda a velocidade manca que poderia tirar de meus pés descalços e machucados. A sorte é que a praça central não estava muito longe.

- Você tem razão Reizinho. Ai meus pés que ardem! Nós que temos um serviço inconstante não podemos perder uma cliente fixa, ainda mais com o risco de ser despejado. Ai que arde!

 

Com os pés latejando em dor cheguei e meus olhos saltaram direto para o relógio: cinco e três da tarde. Três minutos atrasado. Mesmo assim ela ainda estava lá, e que bom, sem a polícia. Pedi desculpas por estar no muro dela e ia me explicar, mas ela mandou eu me calar e fazer meu serviço.

 

De olhos baixos, tomei a posição de sempre e, surpreendentemente, quando entregou os sapatos, ela mesma foi se explicando. A voz de quem reunia forças para ser capaz de falar se desprendeu da sua boca:

- Os sapatos eram do meu marido que morreu no outro continente durante a guerra. Ele gostava deles brilhantes e eu sempre os deixava preparados para ele à beira da cama. 

Seu olhar se anuviou, os olhos voltaram para o passado, e lá ficou perdido. Para trazê-la de volta, joguei de propósito minha lata de graxa para cima, deixando-a cair e fazer barulho. Depois comentei de uma imagem bonita que foi tê-la visto abraçando a cobiçada jabuticabeira.

- Também gosto de abraçar árvores.

- Aquela árvore era a preferida do meu marido, mas está morrendo junto com ele. – Sua voz grave e sussurrada foi embargada pela saudade. – Logo ele que valorizava tanto a vida foi assassinado em combate. A jabuticabeira é a lembrança mais viva, além dos sapatos e das fotos. Passávamos muito tempo sentados debaixo daquela árvore, falando sobre a vida e comendo jabuticabas. Eram nossos melhores momentos.

 

Nossos olhos se mancharam com pequenitos laguitos de lágrimas. Comovido, perguntei se ela cuidava da árvore.  Ela passava os dias muito deprimida, se lamentando, e não suportava fazer nada como antes. Em voz firme eu falei que era melhor que... a senhora cuidasse da árvore e o pé permanecesse vivo e com frutas para lembrar melhor o falecido marido.

Foi bem isso o que eu disse e ela até sorriu. Precisa ver. Um sorriso muito sutil, mas sorriu! Tive que dizer também que era muito bom ela vir engraxar os sapatos sempre, mas que, se eles não eram usados, não precisava de graxa com tanta frequência. Já a árvore tinha vida e não podia morrer.

– Com certeza o seu marido, onde estiver, ficará muito mais feliz com a árvore viva e cheia de jabuticabas.

 

Claro que seria bom que ela trouxesse os sapatos pelo menos uma vez ao mês! E para meu alívio a dona Sabatina foi embora dizendo que voltaria a cada duas semanas, não sem antes me entregar a mesma caixa onde ela trazia os sapatos do marido com um bilhete. Juntou os sapatos do esposo, já brilhantes, embaixo do braço, e foi-se deixando a caixa comigo. O bilhete que deixou para mim dizia:

“Para Tomé, meu psicopompo.”

 

Quando abri a caixa: sapatos! E um par de meias cor de vinho que iam combinar muito bem com minha boina marrom. Ainda algo tornava esses calçados únicos. Possuíam pequenos pares de asas que saíam das laterais na direção de onde ficavam os tornozelos. Que belas essas botinas! Quando as calcei senti algo estranho... como se meus pés quisessem andar sozinhos. Começaram a ir para um lado e para o outro que tive dificuldade de conseguir amarrar as bichinhas, precisando fazer força para segurar uma delas que insistia em sacolejar! Já calçado, elas me derrubaram no chão. Era como se precisasse aprender a andar novamente, mas com um agravante, pois as botinas erguiam meus pés para o alto, escorregavam para os lados ou iam rápido demais. E fui assim até me acostumar, brincando pela praça, pulando no coreto, levando tombos e até perdendo algumas penas. Esperava que elas crescessem novamente..., mas por via das dúvidas guardaria para o Alziro sapateiro colar, caso fosse preciso.

 

- Reizinho, nem sinto meus pés doerem mais. Assim como a ferradura deixa o cavalo livre para correr, mas faz possível que ele puxe a carroça e trabalhe pesado, essa agora é a minha ferradura. Estou igual a um cavalo. Ferrado! Pra frente e avante!

...

Esse conto faz parte da coletânea "Sobre brilhos e graxas".

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