lillemôr e cairês

 

Ela se consolava com as flores de seu jardim, regava-as como se o cheiro que levantava das plantas e da terra molhada lhe aliviassem as dores e as angústias. Era o que lhe dava ânimo e a fazia valorizar as belezas deste mundo tão crescente em destruição. Neste dia, regar as plantas era a forma de se fortalecer para o momento do almoço, dia de trazer lembranças à tona, de enfrentar a tristeza da saudade. Há 1 ano a presença de Donato ficou marcada no lugar à mesa que nunca ninguém mais sentava, que foi o seu lugar de toda a vida. Seu rosto estava bem atrás do lugar da cadeira, no retrato de casamento com Lillemôr. Os dois em resplandecente felicidade. Na hora do almoço estariam em pauta as mesmas memórias, as que foram lembradas no decorrer deste primeiro ano sem o patriarca da família.

 

“Mãe, não fique apenas lamentando. Volte a sair e se divertir.”, disse o filho mais velho, o mesmo que cerrou o cenho quando um amigo da família fez menção de puxar a cadeira reservada para se sentar, o mesmo que disse “Este lugar era de meu pai, sente-se aqui, por gentileza.” Esse mesmo, aconselhou a mãe a sair para se divertir, como gostava, como sempre gostou de fazer em companhia de seu esposo. Lillemôr ouviu o filho com um meio sorriso e deu um tapinha em sua mão. Como boa mãe conhecedora do filho que tinha, sabia que ele não havia falado bem o que pensava. Enquanto os filhos tiravam a mesa do almoço, ela pousou um dos cotovelos na mesa e pendeu a cabeça para pentear os cabelos ruivos com a mão. Assim, fixou seus olhos no retrato atrás da cadeira reservada.  Donato sorriu para ela, encorajando-a. E ela o sentiu. Sentiu o toque dele em seu ombro, aquele toque de conforto e companheirismo que ela conhecia tão bem.

 

Ela adorava se pentear em frente ao espelho. Se considerava bonita, jovial, adorava dançar. Era injusto que sua vida acabasse porque o seu companheiro de bailes e diversões falecera. A vida estava ali, pra ser vivida até o fim, que poderia, aliás, estar próximo. Uma amiga sugeriu um grupo da 3ª idade no Whatsapp, incluiu Lille. Entre as 57 mensagens de bom dia que fizeram Lille querer trucidar a amiga por essa fria, apareceram coisas interessantes como algumas paisagens muito belas e outras coisas engraçadas, como homens mais velhos que ela, inclusive, mandando fotos sem camisa em total exibição à procura de companheiras, e recebendo de comentários elogiosos até pedidos de que os banissem do grupo. Fotos com tentativas falhas de piada tinha aos montes, como informe de bingos e vendas de pizzas, pães e bolos beneficentes, além de vídeos-cassetadas viralizados que Lille não teve paciência pra abrir mais que um. Cancelou o download automático do celular por conselho e ajuda da filha, para não lotar sua memória e neste mesmo primeiro dia de grupo confirmou presença em um baile com temática anos 60, 70 e 80 na cidade vizinha. “Mas com quem você vai, mãe?” “Ora... Com a Claudia, né Claudia?” Lillemôr pegou de surpresa a diarista que passava. “É, é sim.” Ela confirmou, mas não imaginava que a patroa estava levando o convite a sério.

 

“Tomem cuidado pra voltar. Não beba mãe, ou fiquem por lá em um hotel e voltem amanhã.” “Quem é a mãe aqui? Mas não se preocupe, minha filha. Não vamos nem dirigir. Vamos de van, em caravana.”

 

Na festa, Claudia logo se esgueirou pra conhecer algum moço com que pudesse se casar. Solteira toda a vida, ainda sonhava com o casamento dos sonhos. E nessa, eis que um homem se aproximou de Lille. [Sugestão de música 1] “Como se chama?” “Lillemôr.” “Limor?” “Lillemôr. Pode me chamar de Lille”. “Ah, satisfação Lille. De onde vem esse nome?”. “Tenho ascendência norueguesa.” “Eu me chamo Marciulino, mas todos me chamam de Cairês, que é meu sobrenome. Português.” “Muito prazer Cairês”. “Você é de quando?” “outubro de 49 e você?” “Março de 55”. “Você é mais velha que eu! 5 anos”. “Depois de uma certa idade é como se todos nós tivéssemos a mesma idade. Convenhamos que 62 para 67 não há diferença nenhuma.” “Está corretíssima.” “O que faz de profissão?” “Sou comerciante, aposentado há alguns anos já. Por sorte consegui me aposentar antes de quererem acabar com a previdência, mas meus filhos ainda tocam o meu negócio. Tenho uma loja de ferramentas, torneiras, parafusos, brocas e afins. E a senhorita?” “Que bom que conseguiu se aposentar cedo. Fui professora de educação física no estado por muitos anos. Há outros tantos sou apenas dona de casa e mãe.” “O trabalho mais honrado e menos reconhecido, de dona de casa e mãe.” Ela sorriu. Algo aconteceu dentro dela. E Marciulino a viu colorida, brilhando por dentro. Algo aconteceu também dentro dele. Conversaram muito mais. Dançaram juntos. Um beijo aconteceu. Sim, no primeiro encontro, um beijo aconteceu. E voltaram pras suas casas e pensaram um no outro e acordaram mais sorridentes no dia seguinte. [Veja o álbum 1. Depois pare a música.]

E os filhos de ambos perceberam a felicidade aparente e indagaram, questionaram e enciumados se irritaram. Os de Lille chegaram a convocar uma reunião entre eles. Pediram pra mãe não fazer mais isso. Sair tudo bem, mas namorar seria um pouco demais. Não seria bem visto, além de tudo. Lille não esperava outra reação.

 

[Música 2.] Por isso se encontraram escondidos. No domingo Lille combinou com Claudia, ela diria que estariam juntas no bingo beneficente do grupo da 3ª idade caso perguntassem. O filho mais velho, infiltrado no grupo como Lourenço confirmou que o bingo aconteceria mesmo. E como já desconfiavam logo chegou mensagem da filha de Lille no whatsapp de Claudia. “Quer uma foto nossa?” Mesmo sabendo ser bem feio, a moça disse que sim. Pediu foto de Claudia e da mãe pra ver quão lindas estavam. Por muita esperteza, Lille e Claudia tiraram essa foto dois dias antes no carro, com a mesma roupa que Lille havia separado pra sair com o amante. Lille parou o carro em uma rua abandonada perto da subestação de energia elétrica da cidade. Cairês chegou buzinando e tocando Cyndi Lauper em homenagem a Lillemôr. Rodaram, cantaram alto e pararam em um motel. Sim, motel. Entregaram-se e provaram-se vivos. Depois pegaram uma pizza inteira pra comer no carro e recompor as energias. Comeram metade, tiraram fotos no celular e Lille achou melhor voltar para casa antes que anoitecesse.

 

Depois que Lille voltou, a filha estava lá, a esperando e lendo um livro de auto ajuda sobre como poderia curar sua vida. [Pare a música] Lille correu para o quarto, com desculpa de ir ao banheiro, o que fez a filha estranhar e segui-la para ouvir atrás da porta. [Veja o áudio 1.]

Quando Lille saiu do quarto, encontrou a filha com ar sério na sala, o livro fechado em suas pernas. Começaram a conversar e Lille contou muito mal como foi o bingo, nervosa por perceber que a filha já estava desconfiada de que ela estava mentindo. A filha, com voz docemente irônica e tom de cruel sensatez disse que “Se não fosse pelo papai você não ia ter nada disso agora. Não com seu salário de professora do estado. Acha justo que ele tenha conquistado tudo isso pra você acabar de usufruir com outro, um estranho para nós? Pense nisso mamãe. E quando morrermos todos e você se encontrar com o papai além túmulo? Estará de mãos dadas com esse português e aí, vai dizer o que a ele? Morreu, perdeu! É isso? Toda jovenzinha né?” “Cale-se!” E Lille lhe deu um tapa de arder a face da filha e a palma da sua mão. Só não ardeu mais que o seu coração magoado pela insensibilidade da filha. A moça virou-se e correu para seu quarto. Lille fez o mesmo. A tristeza fez seu corpo tenso relaxar e cochilou, quem sabe pra nunca mais acordar, como foi de sua vontade naquele momento. Mas acordou e foi com o celular vibrando. Havia muitas mensagens. Uma era de Cairês sob o nome de Alzira, e uma ave como foto de perfil. Não respondeu, nem leu. Olhou o grupo. Aquelas imagens religiosas, outras mensagens de positividade tentando consolar seu desolamento a irritaram e a fizeram sair do grupo, ignorando também a mensagem da amiga Ângela que veio lhe perguntar o motivo. Lille se fechou em seu quarto. Abriu apenas para ouvir os filhos que vieram em defesa da irmã, e voltou a se trancar, ainda mais deprimida.

Depois de dias sem atender telefonemas, responder mensagens e sequer sair de casa, Claudia convenceu Lille de ir para o shopping. A entristecida senhora convidou a sua amiga do grupo da 3ª idade e lá se foram. A amiga que de tudo estava sabendo avisou Cairês, que em bem menos minutos do que seria o normal chegou à cidade e as foi encontrar. Ângela os deixou. E atentos para não serem vistos por alguém conhecido foram para o carro e  saíram do estacionamento. O senhor apaixonado, ansioso que estava despejou que “O mal dessa mãe aqui do meu lado é amar aos filhos mais que a si mesma. Até sabendo que eles próprios falham por seu egoísmo. Eu já decidi, Lille, que se meus filhos não aceitam, o problema é deles. Já são adultos e terão que engolir, ou sumir. É minha vida. Eles que cuidem das deles.” “Mas como? Esse pensamento me soa tão cruel, Cairês.” “E o que nos impõem não é crueldade? Devemos aceitar porque vem de nossas crias? Não concordo Lille.” Enquanto uma lágrima rolava pelo rosto de Lille sua boca exprimiu em palavras a triste vontade que vinha de dentro de si. “Daqui pra minha casa poderíamos morrer em uma buzinada, com o farol de luz alta na nossa cara para nos cegar e não vermos nada.” “Que horror! Não deseje isso. Se for pra morrermos juntos eu prefiro que tenhamos uma morte mais suave.” “Como, por exemplo?” “Comendo doces saborosíssimos, mas envenenados. Ficaríamos com o gosto bom na memória do corpo.” “O quê? Não! Doces são para comemorações! A morte dolorida talvez acabe com tudo com mais eficiência.” “Deus me livre. A dor de dentro já é suficiente.” “Tudo que tínhamos pra viver já foi, tudo que vem agora é excesso.” “Chega de besteiras. Não falemos mais besteiras como essas. Temos nossa paixão, que é nova, uma paixão ainda bebê, recém nascida, com coisas novas, surpresas, aprendizados...” “Não estou falando que é excesso na minha opinião... É na de nossos filhos... Não temos mais o que viver, além de servir à função de mãe e pai viúvos deles.” “Vá mais devagar Lille com essas conclusões. Saiba diferenciar as percepções de suas opiniões. Vá devagar, diminua o ritmo, senão terei que te segurar ou nos perderemos.” “Mas é verdade o que disse minha filha, Cairês, o que direi ao Donato do lado de lá? Como vou agir... e sua esposa... O que dirá a ela... Eu nunca deixei de amar meu esposo por toda a vida... O que vivemos é uma paixão que de qualquer jeito durará pouco perto do que agora eu gostaria que durasse...” “Lille, não reduza nosso sentimento a um ou dois anos... Ainda temos anos de vida pela frente... Do lado de lá nos resolvemos depois. Não há como prever... Se sente o mesmo que eu, me dê a mão, venha comigo.” Cairês pegou na mão de Lille, sentiu-a fria e tentou esquentá-la esfregando-a com sua mão. “Sabe o que faltou na educação dos seus filhos? Faltou eles lavarem uma louça, cortar a grama, lavar o carro que você usava pra levá-los pra lá e pra cá. Foram enfraquecidos, achando que podem o que querem e não aceitam ser contrariados. Afeto não se mostra apenas com presentes e sims.” “Não me pressione Cairês, eu imploro.” “Ok. Não digo mais nada, se vai encarar como pressão. Estamos terminados?” Lille estava a uma palavra de ceder à pressão dos filhos.

1ª sugestão de música

Time After Time - Cyndi Lauper

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2ª sugestão de música

True Colors - Cyndi Lauper

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3ª sugestão de música

Girls Just Want To Have Fun - Cyndi Lauper

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Informativo:

Sais de cianeto são eventualmente usados para um suicídio instantâneo. Ao entrar em contato com os sucos digestivos, íons CN- são liberados, paralisando o sistema nervoso e respiratório do indivíduo (Fonte: Wikipedia)

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