Íkaros uma crônica de autoficção

Sabe aqueles bonecos de madeira que são usados pra estudar anatomia, geralmente usados por quem desenha? Eu arrumei um, sempre quis, e a primeira coisa que fiz foi colocar penas nas suas costas, dando asas pra ele. Levei pro quintal e o lancei pra cima, como se lançasse a mim mesmo, o sol quente derretendo minha maquiagem nos olhos e ofuscando minha visão. O céu azul, com poucas nuvens, dando espaço pros raios solares esquentarem meu corpo por baixo do sobretudo preto, camisa preta, coturno preto e a calça jeans customizada com o desenho de um labirinto.

Asas e labirinto. Tão contraditório. O boneco que lanço cai de volta nas minhas mãos. O lanço novamente repetidas vezes. Seu voo sempre se transforma em queda, mas eu impeço a concretização. Até que decidido a observar realidades eu deixo de colocar minhas mãos embaixo do boneco e ele se estabaca no chão. As asas de nada adiantaram.

Resolvi fazer uma peça, ou sei lá, ensaiar uma peça de teatro. Talvez eu a grave em vídeo ao invés de apresenta-la em um palco. Durante essa peça vou usar coisas já ditas. Vou dizer que sou Ícaro. O meu intento com isso? Cultivar o sonho e evitar a tragédia.

[O LABIRINTO]

 

Na rua, de noite, em frente à sala de ensaio, observo a casa da frente, do outro lado da rua. Aquela janela nunca abre, mas sei que naquela casa são guardados caixões de uma funerária. Tem um homem idoso que mora ali. Deve ter dormido cedo ontem só pra acordar de novo hoje, esperando já chegar a noite pra pedir comida diferente pelo app. Todo sábado ele quer lanche. Eu adoraria compartilhar um lanche, sentados na calçada, longe dos caixões. Perguntaria se ele tem um sonho vivo, porque não consegui imaginar algum... de um guardião de caixões pra mortos.  Realmente não sei... Um sonho interrompido? Pediria que ele me contasse, e tentaria descobrir, pelas suas respostas, porque eu me sinto tão preso num labirinto. Será que ele se sente assim? Você se sente assim também?

 

Abro a porta de aço que corre pra cima. Preparo o ensaio, coloco o figurino: o traje da tragédia, bem típico, aquele que já descrevi ali em cima enquanto lançava meu boneco pro alto e o sol derretia minha maquiagem dos olhos - uma sombra à estilo de uma ave, que voa e não cai. Veste comprida, com cintura alta; ombreiras herdadas do exército; coturno, que corrige a marcha, utilizado pela cavalaria. Eu desenho um labirinto no chão, deito sobre ele, com o roteiro da peça em mãos.

 

HIPÓCRITA, na tradição grega é o ator; aquele que diz ser quem não é. Leio o roteiro da peça Íkaros. Até que envolto pelas indagações sobre minha situação de ÂNTROPOS, um homem mortal, com a vontade de encontrar uma saída, mas que está desorientado pelos caminhos cíclicos, enredados, totalmente desnorteado, me encolho dentro do labirinto. Será impossível fugir desses caminhos ilusórios? É possível parar de se movimentar, parar o tempo, ficar aqui, só e tão somente só?

Interrompo o texto. O que será que Ícaro faz pra passar o tempo no labirinto?

 

Resolvo acrescentar na peça algo que não tinha. Eu me aposso de uma caneta e insiro recortes em que Ícaro experimenta formas pra enganar o tempo.

 

Penso que ele coleciona frutas, certamente:

“Ícaro prova as frutas de uma cesta, com satisfação. É como um quadro vivo de natureza-morta.”

Expressa possibilidades de pessoas-pássaro:

“Ícaro esculpe humanos-pássaros, com esperança.”

Importante essa esperança. Mas também importante que busque treinamento, formas de sair do labirinto, com exercícios e bastante ENTHUSIASMO.

“Treina maneiras de sair do labirinto. Porém, teimoso, porque já disse seu pai: O único jeito de sair é pelo ar, com a boa vontade de Zéfiro, o vento da primavera.”

 

Nesse exato momento da escrita dessa frase o meu telefone toca. Caio do voo-imaginação. É meu pai, o cenógrafo dessa peça.

 

“Alô! Oi pai. Um abacaxi? Levo… com urgência... Ta...”

Isso eu devo ter puxado pro meu pai, querer as coisas na hora. Ensaiei a noite inteira, já era manhã e meu pai devia estar trabalhando há um tempo. Agora o sol já estava marcando sua presença de novo, me chamando pro voo, e o abacaxi seria ótimo pra refrescar.

Meu personagem, depois de inúmeras tentativas cai em si, assim como eu. Mais uma vez. Meu pai pede um abacaxi, com urgência, e consegui-lo se torna o próximo objetivo da noite. Ops, do dia. O cotidiano continua, ordinário… Preciso acrescentar ações em que Ícaro:

- se queixa da própria sorte;

- passa a noite em claro, remoendo suas culpas;

- se aborrece falando de suas obrigações.

Insatisfeito. Dominado pela mania de querer realizar coisas.

[A OFICINA]

 

Meu pai Wilson é Dédalo nessa peça, pai de Ícaro. Ele trabalha no centro da sua oficina de serralheria, entre entulhos de ferro e metais, de possíveis invenções inacabadas e outras quebradas. Ele está fabricando um par de asas. Eu o ajudo em alguns momentos, até que resolvo registrar alguns depoimentos pra integrar a nossa obra conjunta de pai e filho. Enquanto meu pai trabalha na solda eu fatio o abacaxi dele, armo uma mesa, à frente de onde ele tem gravuras coladas na parede. Todo espaço é possível virar palco.

Convido meu pai pra se sentar um pouco, aponto a câmera e o entrevisto, querendo saber sobre seus sonhos, tirar dele qualquer informação guardada em seu coração de sonho não realizado, pra saber que é possível sobreviver e continuar a viver com a frustração.

“Verdade que teve uma época que você queria entrar pra marinha?” - pergunto.

“Sim, quando eu estava na escola ainda.” – ele diz – “O governo mandou fazer seleção na escola, preencher uns dados, levar aos pais pra aprovarem e a gente ir. Fizeram um teste, eu passei no teste, mas meu pai e minha mãe não deixaram.” – ele ri.

“Isso virou um sonho pra você, de ir pra marinha?” – continuo obcecado por saber dos seus sonhos, e insisto no assunto.

“Mais ou menos... Virou um sonho, mas... Não deu certo.” – sua resposta é singela, conformada depois de tantos anos, e eu quero drama.

“Foi um sonho interrompido então?”

“Sonho interrompido.” – ele fala sem gravidade, sem tristeza, mas relembra – “Não era todo mundo que ia, era pra estudar na escola, pra se formar... o mesmo curso que eu estava fazendo na escola, ginásio, era pra estudar e... seguir a parte de engenharia, parte de piloto, oficial.

“Você queria ir pra parte de piloto?”

“Piloto.”

“Piloto de quê?”

“Piloto de caça.”

“Igual esse daí?” – deixei à sua frente um modelo miniatura de um caça, que também fizemos juntos, ele montou e eu pintei. Ele o pega e começa a ver com suas mãos e olhos.

“Igual esse daqui.”

“Qual é esse daí?”

“Esse aqui é o Mirage.”

“Que é o da época...”

“Da época, mas não sei se tinha desse aqui, né? Na época do....”

Ele para e brinca com o avião, fazendo-o voar e imitando o som. Sua criança interior salta pra fora, a vejo em seu rosto e sorriso. Depois que o caça pousa, resolvo continuar a entrevista.

“Bom, você trabalhou duro toda a vida né, e ainda trabalha até hoje, com ferro, material duro e tal. E pra trabalhar com isso precisa de muita paciência. E diferente do seu pai e da sua mãe que não deixaram você seguir uma carreira naquela época, você nunca tentou me impedir de seguir o que eu quis...”

“Não” – ele afirma

“Por mais difícil que fosse (a minha carreira). Queria que você falasse um pouquinho sobre isso.”

“Ah, eu acho que a pessoa tem que fazer o que gosta” – ele balança a cabeça negativamente em tom, porém não muito exaltado, de indignação – Fazendo o que gosta ele vai se realizar, vai chegar a alcançar seus sonhos... Eu acho que é isso aí, tem que fazer o que gosta...”

“Mas você já viu eu me frustrando várias vezes né, porque é uma carreira difícil”

“Vi bastante, bastante, bastante.”

Ele interrompe pra concordar, afirmar e reafirmar. Não sei se acho graça ou trágico. Quero seu conselho real, afinal ele é meu pai.

“O que você acha? Que é continuar ainda?”

“Eu acho que sim, se esse é seu sonho tem que continuar, tem que alcançar o seu objetivo.” – Ele não titubeia, é reto e certo. – “De uma forma ou de outra você tem que achar o que está errado, onde está errando, achar onde está o objetivo e alcançar... Alcançar seu sonho.”

Preciso de uma pausa, porque fico um pouco emocionado.

“Pode comer o abacaxi.”

“Ê, mas que gostoso, eu posso comer esse abacaxi aqui?”

“Pode, come, tá geladinho, não tá?”

E amarelinho também, cara de doce. Ele engole o suco da primeira mordida, segurando em pinça com o indicador, anelar e polegar, o mindinho afastado, como se isso fosse evitar de sujar o abacaxi com resquícios de ferro na sua mão.

“E tá bom ein?”

“Não tá azedo não?”

“Esse não tá azedo.”

Nem todos os nossos desejos e sonhos precisam ter fins azedos.

“Vocês não tão com vontade, não?”

Ele diz no plural, estou com a equipe de gravação da peça, o diretor, o fotógrafo, o músico que já vai tocar a guitarra.

“Eu tô, eu quero.”

Quero provar algo doce nessa vida, mas é do doce de algo que tenha fama de ácido que falo, como tentativa de realizar sonhos, como abacaxi.

“Viu, as últimas perguntas... Você tem algum sonho hoje?”

“Hoje?”

Ele está gostando muito do abacaxi, está suculento, doce, parece uma boa nova, um bom presságio.

“Ver vocês realizados.”

Eu rio, emocionado.

“E medo de alguma coisa?”

Seus olhos se movem, buscando uma lembrança na memória, em uma fração de segundo.

“Ah, medo não pode ter.”

É isso. Queria que fosse simples assim. Queria parar por aqui, mas o medo existe e precisamos falar sobre ele. Coloco nas suas mãos um texto, pra que ele possa ler, como se fosse um depoimento de Dédalo.

 

Cenógrafo-Dédalo:

Quantas vezes você sentiu que estava voando e de repente caiu de novo no labirinto? Dói, né? A queda dói. O pardal sabe o quão alto ele pode ir. A gaivota tem mais HYBRIS. Ousadas. Elas desafiam a própria natureza voadora. Quantas vezes, por medo de cair, você ficou no cume, parado, ensaiando um bater de asas, pronto pra se lançar, mas seus pés grudaram no chão, criando estaca do calcanhar pra terra? O píncaro não permite que a gente fique nele. Depois que subiu tem que descer, ou rolando, ou voando.

 

Tomo o meu depoimento nas mãos, na tentativa de memorizar o texto. Falo sobre o exemplo do meu pai, que torna a ação um corretivo contra o medo e o erro.

 

Ator-Ícaro:

É dolorida e desgastante a sensação de inércia, esperar algo acontecer, que nunca acontece. É como correr na esteira esperando mudar a paisagem. Quero avançar, mas não sei como. Dédalo tem a paciência da abelha para o trabalho árduo. Faz, refaz, erra, desmancha, acerta.

Eu e meu pai finalizamos a estrutura da asa. Chega a hora de experimentá-la. Wilson-Dédalo me prende em uma talha guincho manual que ele fixa sobre as vigas do telhado da oficina. Ao som da Orchestra, com seus músculos e braços próprios ele me sustenta, me faz ter um ensaio do voo. Ele satisfeito por ver sua asa entregue a mim, eu grato por isso e entusiasmado por poder chegar mais perto do céu, do sol.

 

Obrigado, pai, por tudo e por tanto.  

[O CUME]

Subo um prédio alto, primeiro de elevador, depois escalo uma escada. No caminho faço uma PARÁBASE, que no teatro grego é o momento que a cena é comentada com a realidade:

 

Eu pareço um tolo falando sobre sonhos, quando às vezes falta comida no prato, quando tem pessoas sendo assassinadas por bala perdida, quando a luta por liberdade falha logo na educação. Papo besta esse de sonho né? Brega… parece até que os sonhadores são um bando de gente iludida. Coisa de poeta! Mas não tem jeito, disse Shakespeare e eu acredito, somos feitos da mesma matéria de que os sonhos. Acredito. Estamos na mesma, todes no labirinto, e pra sair só tem um jeito. Asa e Voo. A asa é sonho, o voo é ação. Ícaro está indo para o píncaro, cume de uma montanha. Pronto pra se lançar no espaço vazio. E você? Onde você está?

 

Ao fim da escada, chego no heliponto, observo o horizonte. Abro as asas.

 

Que o céu se aproxime. Tão desejado como um oásis no deserto. Essa vontade do céu me faz fazer o que eu quiser? Ícaro-destemido sobrevoar a terra toda, por todas as cabeças, com suas divagações, preocupações, opiniões e sonhos. Chegar ao espaço, tal qual foguete, na Lua, para tocá-la e, Ícaro-curioso, lamber os dedos sabor poesia. E por fim, Ícaro sonhador, tocar o Sol, sabor de conquista, vida plena e morte. Mas essa, a morte, não tão jovem. Ouviram, Moiras? Me deem fio! Me deixem por muito tempo com vida.

 

Que essa viagem demore, que o tempo dure, suficiente, para construir ações, não éter, mas eternizadas. E que o ato final, de tocar o Sol, não seja o de passar do métron, da medida, mas uma apoteose transcendente de uma vida dançada nas suas grandes sutilezas, com o mesmo prazer de comer brigadeiro numa noite de chuva. Que possa eu viajar ao infinito de estrelas, vermelhas, amarelas, verdes, azuis.

 

Que você, leitora e leitor, e outras pessoas possam usufruir das minhas palavras dispostas em prosa, talhadas em vídeo ou no palco de teatro, pois esse é o sentido de passar aqui, pra que outros possam usufruir quando, eu Ícaro, desapontado ou realizado, tocar o Sol.

 

O oráculo de Delfos orientou: “Nada em excesso”. Menandro, o autor de comédia me diria: “Antes pouco do que nada”. Ah Menandro, poeta, eu que te digo agora, então: Antes nada do que pouco, do que pouco risco! Seguindo citações, a da minha avó: tem que ser dado nessa vida. Dado ao vento. Tem que se atirar! Menandro, seu dito foi prudência ou covardia? Vindo de você acredito até em zombaria.

 

Olho o horizonte, a altura que estou e sinto medo. De onde vem a turba dos 4 ventos? Oro: Zéfiro, vento fortificante e agradável, me proteja e não permita que Bóreas, o vento imprevisível, furioso e violento me derrube. Não quero sentir o drama das águas enlouquecedoras dos mares. Se eu cair desiludido, que as harpias se encarreguem de mim e que um dia no porvir, soprem meu nome por aí. É hora de saltar.

                  

Salto.

 

E termino por aqui, porque não sei o que há de vir.

 

...

Desejo que essa prosa possa fortalecer um pouco os seus sonhos.

Para assistir à peça videográfica Íkaros, clique aqui.

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