Dia dos reis

Todos queriam ser rei, mas ser um é privilégio para poucos. E José era um privilegiado, porque inventou a brincadeira e decidiu assim:

- Nas monarquias ninguém decide quem será rei, apenas o tal decidiu que seria o soberano e assim ficou. Pelo menos penso que seja assim. Se conquistei o meu território sou o responsável por ele.

Então, José ficou com o caminhão do meio que tinha uma carreta grande nas cores vermelha e branca com cortinas azuis na cabine. Uma beleza! Até tamborzinho de água havia no seu castelo e o caixote de engraxar coberto pelo chinil vermelho que ele tirou do banco funcionava muito bem como trono. O Valmir também conquistou um dos territórios, da mesma forma que José, chegando primeiro. O dele era branco, tanto a carreta quanto a cabine que tinha cortinas verdes. Mas uma briga aconteceu com o terceiro castelo que era o maior, azul de carreta verde, o mais comprido e mais alto. Para entrar neste castelo precisava uma verdadeira escalada.

Como eram seis e todos queriam ser reis de algum castelo começou a discussão. Para resolver isso, os que já eram soberanos decidiram que haveria uma competição e o conquistador seria quem se desse melhor nas provas. Quatro competidores iriam lutar pelo maior território: o caminhão do Caetano.

A primeira prova seria de colheita. José e Valmir marcaram os pontos de partida e chegada. Os competidores teriam cinco minutos para pegar manga no pé e aquele que trouxesse a menor quantidade estaria eliminado da próxima etapa. Antes de se prepararem, porém, o Freitinha desistiu da prova. Disse que não queria competir e que não estava se importando nem um pouco com aqueles caminhões que nunca seriam castelos de verdade e que também nenhum deles nunca seria rei de verdade e que era tudo uma bobagem. Deu de ombros e, talvez acovardado, foi para casa.

Prepararam-se então o Paiva, o Manuel e o Felipe, enquanto o Valmir foi emprestar o relógio de bolso do avô.

- Ele deixou?

- Estava dormindo. – Confessou – Por isso precisamos ser rápidos.

Foi dada a largada e os três subiram na mangueira. Felipe arrancou a verruga do joelho na primeira tentativa de subir. O rio de sangue que escorria atrapalhou seu desempenho, preocupado que ficou. Consequentemente, quando contaram as mangas ele foi o eliminado da competição. O Valmir correu para devolver o relógio e o avô nem percebeu. Antes de irem para a próxima prova, José convidou a todos para um banquete em seu castelo.

Com os estômagos pesados de manga espada, escolheram a próxima prova: escalada. Aquele que prendesse primeiro a bandeira da conquista no alto da carreta seria o vencedor, mas claro, só no dia seguinte para não terem uma congestão. Como seria domingo precisariam fazer a prova somente depois do almoço, pois pela manhã José iria para a igreja do centro trabalhar.

No horário combinado, às duas da tarde, José chegou e notou algo estranho. Viu para seu desgosto que o grande castelo estava tomado por outra pessoa. Logo depois chegaram o Paiva e o Manuel, igualmente inconformados. Havia várias bandeiras em volta de toda a carreta e lá dentro ouvimos uma movimentação. De repente, surgiu uma cabeça.

- Freitinha! – exclamaram todos de baixo.

- Fora daqui seus fracotes! Este castelo já tem rei!

- E a mangueira também é nossa. – Exclamou outra voz, a do Felipe.

Quão surpresos não ficaram! Realmente o caminhão ficava estacionado bem próximo à mangueira, mas isto não era nem um pouco justo.

- Nem todos os reis são justos. Além do mais, quem decide o que é ou não é justo? Na minha opinião, fomos justos.

- Opinião não é regra! – exclamou José – Nós decidimos as regras em conjunto.

- Pelas regras do meu reino, a maneira como o conquistamos foi justa.

- Guarde bem suas próprias palavras, Freitas! – o Paiva gritou afogueado de raiva.

Diante desse problema, José chamou uma assembleia em seu castelo com os guerreiros competidores e o Valmir que acabara de chegar. O Paiva, que tinha sangue mais quente, queria atacar com pedras o castelo deles. O Manuel sugeriu que pedissem um decreto ao Caetano que cedesse o caminhão para eles, e então expulsariam os dois com ordem de um adulto que era o real dono do veículo. José defendeu que não fazia sentido, pois eles eram os soberanos e não o Caetano.

- E ainda ele pode se irritar e proibir que a gente brinque lá. – Completou.

- Temos que reconquistar o castelo e a única maneira é invadindo. – Valmir concluiu.

- Então voltamos à minha ideia de atacar com pedras. – Paiva falou se levantando e fechando um punhado de pedregulho nas mãos.

- Não. Vamos entrar no castelo deles com nossos pertences e expulsá-los, sem violência. – José argumentou.

- E você acredita que eles não farão nada para evitar que entremos lá? Ingênuo. – Paiva rebateu.

- Claro que vão fazer de tudo, mas nós escalaremos cada um por um canto. Estamos em quatro e eles em dois. Aqueles que subirem expulsam eles de lá.

- Como?

- Oras, com um decreto de expulsão.

- José, isso não funciona! Precisamos tirá-los de lá e não pedir para saírem. – Valmir juntou-se a Paiva.

Diante disso, José foi convencido de que realmente não sairiam com um decreto escrito por eles, então sugeriu:

- Vamos subir com espadas.

- Agora sim podemos nos entender. – disse o Paiva com um sorriso malandro.

- Vou buscá-las.

Foi Manuel quem trouxe pedaços de pau como espadas e toalhas para fazerem a capa. Todos se prepararam e colocaram as espadas presas na bermuda enquanto ouviam os risos debochados vindos de dentro do maior caminhão.

- Prontos? – José perguntou.

- Prontos! – os amigos responderam em coro.

José e Valmir colocaram as suas novas coroas feitas de papelão e desceram à frente, prontos para o combate. Alcançando o castelo inimigo, Valmir gritou:

- Subindo, todos! – e se dividindo, um para cada canto, começaram a escalar. Logo, Freitinha e Felipe apareceram e tentaram derrubar os invasores, chacoalhando a guarda da carreta. Deu um pouco certo. O Manuel se desequilibrou e caiu. Com o pé torcido decidiu não tentar subir de novo, mas ficou gritando em apoio à sua tropa. O Felipe pegou sua espada e foi para cima de José. Empoleirados na carreta, um contra o outro duelaram, os olhos se enfrentando enquanto as espadas batiam-se.

- Vou destruir sua caixa de engraxar, você vai ver! – ele falou, deixando José engraxate furioso porque sabia que o rival sempre quis uma caixa daquelas.

Já Valmir alcançou o topo da guarda do caminhão e pulou para dentro, chegando até Felipe para ajudar o aliado José. Mas o adversário era muito ágil na espada e dava conta dos dois. Enquanto isso, do outro lado da carreta, o Freitinha tentava derrubar o Paiva. Com sua espada acertou a cabeça do outro de raspão. Arrependido, ele se desculpou, mas o agredido urrou com muita raiva e chacoalhou a carreta com toda a força, desequilibrando o Freitinha que precisou se segurar. O Paiva, montado como em um cavalo, deslizou, avançando ainda mais na guarda até alcançar o Freitas e tentar derrubá-lo para dentro do caminhão. Ficou em pé para poder pular, mas o outro combatente, para se defender, puxou um dos pés do Paiva, fazendo o menino se desequilibrar e ir ao chão, dando com a cabeça direto no pedregulho.

Desesperado, vendo que o Paiva estava desacordado, o Freitinha desceu do caminhão a todo vapor e correu para sua casa. Estranhando o silêncio repentino, os outros pararam para ver o que tinha acontecido, arrepiados de susto. Manuel que estava mais próximo deu a volta e ficou sem ação com o choque do que viu. Felipe de dentro do caminhão começou a chorar. José e Valmir foram socorrer o Paiva que estava com a cabeça ensanguentada e o corpo mole. Gritaram por socorro e o Caetano prontamente chegou para naquele caminhão mesmo levar o menino ao hospital. Outros adultos chegaram e gritaram uma baita bronca. E lá se foi o castelo a todo vapor, sobre dezesseis rodas, soltando fumaça preta e com o Felipe escondido na carreta.

Quando o castelo do Caetano voltou com outros adultos, foram informados de que o Paiva estava morto!

Assustados, foram cada um para sua casa. José se enterrou em sua cama e, quando os pais chegaram de seus serviços, contou a eles o que havia acontecido. Seus pais logo foram para a casa do amigo prestar consolo e auxílio aos pais dele que estavam inconsoláveis. O Paiva pai queria pegar o Freitinha de socos e a mãe, tia Carlota, tentava amenizar a situação.

Os pais de José, que se prontificaram em ir até a casa do Freitinha conversar com o pai dele, o encontraram costurando, alfaiate que era, sem saber de nada. Quando os viu, o Freitas Filho pulou a janela e desapareceu. José tentou correr atrás dele, mas não o alcançou. A conversa foi triste e o pai do menino caiu em pranto desesperador.

- Tão inocente. Com certeza ele não teve intenção de fazer isso! Que desgraça meu Deus! Outra desgraça se abateu sobre a nossa família. O que será de nós? Ele é tão novinho ainda... Ai meu Deus!

O seo Freitas quase foi atacado pelo seo Paiva quando se encontraram, mas os outros adultos não deixaram. Ele nada tinha de culpa. Sem saber o que fazer, todos foram à delegacia. Nada poderia ser feito, o caso foi considerado acidente.

O enterro foi muito triste. Ver aquele que era como um primo no caixão foi doloroso para todos os meninos. Como os donos do caminhão os utilizavam para trabalhar durante a semana, os meninos não tinham os castelos naquela terça-feira. Reuniram-se, então, ao pé da mangueira. Menos Felipe que foi proibido pelo seu pai e sua mãe, mas também não queria mais saber de brincar com os outros.

- Eu não sabia que crianças morriam assim... Ainda mais amigos nossos. Pensei que isso só acontecesse nas histórias. – José manifestou sua surpresa.

- Eu ainda pensei que não fosse verdade e que o Paiva estivesse fingindo para o Freitinha se sentir culpado. – Valmir dividiu sua já acabada esperança.

- E o Freitinha? Onde será que se meteu? Ninguém o encontra em lugar nenhum. – Manuel questionou.

No dia seguinte, enquanto José engraxava na praça central, descobriu que a cidade inteira estava falando deste caso e por sorte ninguém sabia que ele estava envolvido, porque senão haja língua para responder às perguntas. Ficou é bem quieto, mesmo com as suposições absurdas que ouviu. Até que um dos clientes que sabia do acontecido, próximo dos Paiva, o viu.

- E agora, José?

- E agora o quê? – perguntou sem graça, mas já sabendo do que se tratava.

- Apareceu o Freitinha?

Várias pessoas o olharam e acabaram descobrindo que ele estava envolvido no caso. Sentiu-se um criminoso.

- Vocês todos tiveram culpa, seus danados. E agora, José? O que farão? Já se puseram no lugar da família Paiva? – uma senhora enxerida agitou sua sombrinha

- Não preciso, o Paiva era como um primo meu. E o que aconteceu foi um acidente, ninguém tem culpa, nem o Freitinha. Todos nós estávamos errados, inclusive o Paiva. – Desembuchou em defesa sua e de seus amigos.

- Além de assassino é respondão! – ela retrucou, deixando o menino pasmo por ter sido chamado de nome tão forte e pesado.

- Acalme-se, senhora. Os meninos estavam no meio de uma brincadeira, ninguém teve culpa. – Um senhor próximo dos Paiva o defendeu. – José. Eu devia ter sido mais discreto. Desculpe-me. Vá para casa para não ser importunado por esses ignorantes. – Completou em alto e bom som.

- Desde quando briga feia é brincadeira? São uns bandidos esses meninos. – Continuou resmungando a senhora.

E então, os pais do pequeno engraxate decidiram que era melhor ele não trabalhar por alguns dias. Ele não queria ficar sem ajudar em casa, e gostava de trabalhar para garantir suas figurinhas, salgadinhos e refrigerantes, mas respeitou a decisão dos pais e ficou em casa. Nem à escola foi. No final de semana, José e seus amigos se encontraram. Nunca mais brigariam por castelo nenhum. Todos os castelos seriam de todos, inclusive do Freitas. Mas mesmo assim não tinham mais vontade de colocar os pés nos caminhões.

- Peço a Deus que nunca me dê um trabalho de caminhoneiro. – falou o Freitinha chegando até nós.

- Freitinha! – exclamaram todos, correndo para envolvê-lo em um abraço.

- Meu pai me convenceu a vir brincar com vocês. Disse que vocês não estão com raiva e que o Paiva, onde estiver, irá me perdoar por ter lhe matado.

- A culpa foi de nós todos. – José disse, catedrático.

Nesse dia conversaram sobre o Paiva e sobre a repercussão que o caso teve na cidade. Carregariam para sempre essa triste lembrança, e saberiam também para sempre que duelos não valem de nada.

- E como dividimos nossos reinos, todos agora somos reis. – Valmir lhe contou.

E por bons anos, no dia da morte do companheiro, os amigos se reuniram com suas coroas e capas em um banquete de mangas para relembrar os bons momentos de amizade em homenagem ao amigo que não estava mais entre eles. Esse evento, no qual sempre relembravam o quanto as brigas de poder e posse só serviam para criar cicatrizes profundas nos corações, foi nomeado de Dia dos Reis.

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Esse conto faz parte da coletânea "Sobre brilhos e graxas".

Não perca, na próxima semana, o conto "Que lindos olhos tem você"!