O curió Mozart

Araraquara, SP. 1947. 

Hoje acordei mais cedo que o normal. Despedi-me de minha mãe, enrolei meu pão em um pano, enfiei no bolso, tomei o Reizinho que é meu melhor amigo, um boizinho de chuchu e pregos com rabo de barbante colorido, e lançando o 

caixote por cima dos ombros fui para fora e corri. No galope me lembrei das palavras do seo Walt. 

- É preciso sempre repensar o caminho, e se necessário mudar de lugar. 

Mudei. Fui pela Rua Esperança e tive uma bela surpresa para começar o dia! Encontrei o seo Carunchão que me pediu para ir até a sua casa engraxar seus sapatos. 

Pensa em um sujeito que usa um paletó todo puído com manchas que nenhuma lavadeira poderá tirar, nem mesmo a dona Augusta, minha mãe. 

Ainda têm a calça com joelheiras já pardas e a gravata que de tão velha mudou de cor. Desde que o conheço foi sempre chamado assim e não sei, até hoje, o seu nome verdadeiro. As pessoas – sabe como são as pessoas, não é? - 

vivem cochichando que ele vive de feijão e pão. Sem dizer uma palavra chega à mercearia e o Francisco já sabe: 

-Feijão e pão, parece até um carunchão! 

Mais tarde um pouquinho cheguei à sua casa no horário marcado. Um cômodo só de um bairro afastado, para lá do cortiço onde eu moro e da estação. Sua casa era mesmo cheia de carunchos que esvoaçavam toda hora 

para perto da gente, na cara, nos braços e se não tivesse cuidado entravam em nossa boca atrás de migalhas presas nos dentes. E ele mesmo vivia cheio de carunchos por cima dele. Devia ser pelo cheiro de pão velho que tinha. 

Mesmo que sem dinheiro para roupas novas, fazia questão de sempre manter a graxa dos seus sapatos. Sabia que pisantes bem cuidados eram sinal de boa aparência. Porém, todavia, contudo, o velho tinha dois tesouros, coisas 

de valor. Um era uma vitrola que foi herança da tia. Quase ninguém que eu conheço tem uma. E nada mais havia de móveis além de uma cadeira entulhada, uma poltrona encapada por um lençol de flores azuis, uma cama 

afundada e um fogão arrebentado igual ao da minha casa. E ali, entre a porta e a janela, estava o segundo tesouro: o Mozart, como ele mesmo me apresentou, um curió que aprendeu a cantar com o pai dele que tinha o canto tão perfeito como o Mozart tem agora. Ele era o único amigo e companhia do velho. 

Enquanto eu engraxava, o canto do passarinho ia acompanhado pelo disco de um compositor que o Reizinho quase não acreditou, e você também não vai acreditar, mas também se chamava Mozart. Uma música belíssima acompanhava esse canto tão bonito. 

Um Mozart na vitrola e um Mozart na gaiola. Eu engraxava e o Carunchão expirava em tom sonhador sobre o quanto gostaria de ir às óperas da cidade grande, bem vestido e bem acompanhado. 

Gostei tanto de ouvir a sinfonia que, naquele mesmo dia, quando cheguei à barbearia do Silva, contei para todos do maravilhoso passarinho. No dia seguinte eu soube que o engenheiro Paulo Dias foi procurá-lo. O que eu 

não sabia ainda era que este príncipe era um devotado colecionador de curiós e, quando pediu para ver o Mozart, ficou encantado. 

O rico Dias fez muitas propostas, boas propostas para levar o bichinho, mas o velho recusou todas, afinal o amigo do pássaro não estava disposto a vendê-lo. Até que mais ansioso por ter aquele animalzinho, o engenheiro 

ofereceu ao Caruncho uma nova moradia, localizada perto do centro, com dois cômodos! 

Aquela sinfonia dos Mozarts encheu seu peito de aflição, esperança e angústia. Uma boa casa iria combinar melhor com seus sapatos bem cuidados e ninguém mais o chamaria de Carunchão, já que ele arrendaria seu cômodo, 

trocaria de roupas e poderia comprar mais que feijão e pão. 

Noites se passaram sem que o seo Caruncho conseguisse dormir direito, pois o viam a vagar pela madrugada. Como resmungava. O homem devia, com certeza, estar pensando na melhor condição 

que poderia ter. Tanto-tanto que um dia levantou, procurou o Dias e fechou o acordo. Mal feito, feito, jamais será desfeito! 

O engenheiro levou o pássaro, e esse dia foi uma escuridão de tristeza. Estranho foi que o pássaro passou a cantar diferente. Era o mesmo canto perfeito, mas com a melodia triste! 

Foi uma semana. 

Uma semana depois, o Mozart calou-se. Parou de cantar! Furioso, o engenheiro insistia, brigava, gritava com o bichinho que não deu nenhum pio. Cansado das tentativas e muito irritado, o senhor Dias pegou o passarinho e o 

lançou pela janela! Procurou o Carunchão... Acusou o homem de ter vendido o pássaro já sabendo que ele estava doente e que perderia o canto. Assim, senhoras e senhores, o doutor despejou o pobre da casa nova! 

De volta para a casa antiga, ao deparar-se com a gaiola vazia, o homem se encheu de remorso por tal troca. Hoje é raro ele sair de casa, fica lá com seus carunchos. 

Se por acaso topar por aí com um homem bem velhinho com olhos grandes, esbugalhados, azuis e tristes, sem nenhum sorriso no rosto e que nunca fala com ninguém, passando com um saco de feijão ou de pão, já sabe que é o 

seo Carunchão, que foi o melhor amigo do Mozart. 

...

Esse conto faz parte da coletânea "Sobre brilhos e graxas".

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