Kernicterus

Crônica criada com o tema "Saudade do que não aconteceu"


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mulher de vestido longo e vermelho empurra o filho cadeirante, com espasticidade pelo esperado contato com o vento
Elisabete e Leandro

O sol brilha lá fora. A mãe limpa o filho ansioso. Já ficaram tempo demais em casa, em meses de pandemia. Leandro, mãe, pai, Aila que lambe sem dó. Mas agora, Leandro, Kernicterus, quer correr. Ele é mais rápido que Velociraptor. A mãe o leva pra fora, sente o vento, vibra. Ops, hipertonia! É a ansiedade. Mãe controla o espasmo dele, afaga. Ele, de olhos fechados, abre os braços e corre, sem sair do lugar, o vento na cara, a imaginação solta. O doutor chega, o mesmo fisioterapeuta que o atendeu meses atrás. Leandro breca, bufa, irritado. “Se hipertonia fosse voluntária, te acertava”, grunhe. Mãe empurra a cadeira de rodas até o rapaz de branco, pede calma. O filho acata, sabe que precisa segurar explosões emocionais. “Na consulta, meses atrás, faltei com o devido respeito. E precisava vir me desculpar”. Leandro ruge, concorda. Espasticidade. Mãe se preocupa, atenta a qualquer movimento. O filho abre sorriso, grunhe. Ela traduz: “Ufa, ele ta dizendo que ta tudo bem, doutor. Só quer ser tratado como igual, de homem pra homem, sem ser limitado ainda mais pelo que já o limita demais”. A mãe deu o recado, traduzindo o filho. “Amigos?”, pergunta o doutor. “Não é uma fisio bonitona, mas, tudo bem... Amigos!”, grunhe Leandro levantando o braço em afirmação. Vento.


Essa crônica foi publicada na revista digital Habitat - 4ª edição que você pode ler aqui: https://www.artefato.art.br/habitat-04

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