Soldado nas árvores

Estou inflamado!
Chamem-me ingênuo, mas não me venha com termos políticos pra explicar uma guerra. Aquilo que é fruto de ego de governantes, que ficam protegidos em seus palácios, enquanto o povo fica a mercê de surpresas bélicas. Os soldados vão movidos à raiva de estar lá, será? Eu iria... Capaz de desferir muitos ataques de tanta raiva por ser obrigado a estar ali. 
Recebo o chamado. Convocação. Sem chance de não. Se não atacarmos, vão nos atacar. Lanço xingamentos de toda ordem pra Deus, é mais fácil culpa-lo, porque não o vemos. E talvez ele me ouça, por sua onipresença, diferente do governante que emite ordens de dentro de uma sala. Ainda inconformado faço as malas com a companhia de minha esposa e filha, com lágrimas de medo e indignação nos olhos.


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1º dia: Chego, dentro de um tanque, coração disparado. Destruo um carro. Carro caro, difícil de conseguir... Se a pessoa penou o tanto que eu penei pra pagar o meu carro, ou o que é mais provável, ainda está pagando financiamento disso... Sinto muito. Tomara tenha seguro. Ou não, que se foda, é inimigo, que sofra. Assim como eu estou sofrendo.
 

2º dia: Um flash! Um míssil que cai, mata uma mulher arrimo de família, as crianças ficam só, órfãs.
 

3º dia: Mais famílias desabrigadas. Você sabe o quanto de tempo você precisa ficar pagando financiamento de um apartamento, pra alguém chegar e explodir, a mando de um governante que dorme em seus 7 travesseiros de penas de ganso?
 

4º dia: As crianças ficam com medo e raiva, imitam soldados, dão tiros invisíveis cheios de diversão e fúria, precisam atacar, são violentas, se batem.
 

5º dia: Minha filha chora em casa. Peço ajuda pra um soldado que me grava fazendo uma dancinha no tik tok, com o sorriso mais falso que eu consigo segurar por 15 segundos. Ela vê que estou bem, fico aliviado.
 

6º dia: Um jovem rendido me encara e apela assustado “Não matarás”. Eu o abato. Os jovens ficam perdidos, angustiados, confusos. E o futuro pela frente? Por que esse ataque desgraçado?! Eu também estou confuso, assim como esse jovens. Assim como eles não sei porque estamos nos abatendo. Caio de joelhos e rezo por sua alma, em soluços de arrependimento. Me sinto um prisioneiro. A guerra acaba com nossas liberdades. Vontade de tacar um míssil em cada chefe de estado.
 

7º dia: O apelo do jovem não sai de minha mente. Quando lembro dos seus olhos deixando a vida eu choro. Tenho que seguir meus pares, temos missão. Um pouco à frente uma mulher segura um fuzil, a vejo como a senhora Carrar, de Brecht, cujo marido foi morto por bala desferida no pulmão. Essa mulher, uma civil, uma atual Carrar está com os filhos, empunha o fuzil, orienta os filhos de como fazer, mira a mim, tenta me abater. Eu me escondo atrás de um tanque, meu companheiro mira o filho dela, uma criança, igual minha filha, eu grito apavorado “Pare! É uma criança e sua mãe! Pare! Vamos sair daqui!” Ele para, entra no tanque. Eu? Eu corro. Desisto disso aqui, não quero mais isso pra mim.
 

8º dia: Estou numa área longe das concentrações de ataque, tenho fome e sede. Olho um cachorro. Será? Desisto, ando mais. Sou encontrado por um rapaz de 14 anos. Ele me leva pra sua casa. Me dá água, sua mãe permitiu. “É inimigo”, diz a gêmea do rapaz, reclamando e me olhando de longe. “Você tá sendo maniqueísta”. Eu me impressiono com sua colocação. Não somos bons ou maus, inimigos ou patriotas, somos mandados, paus mandados pra lutar por algo que as vezes nem concordamos.”, me defendo. Me trazem pão, o rapaz e sua mãe, eu agradeço e como com avidez. Meu celular. Perdi meu celular na fuga. 
 

9º dia: Sei que vão começar a me procurar. Uma tropa do meu exército se aproxima. O menino gêmeo entra correndo, eufórico, não sabe o que fazer. Estão em busca de libertar prisioneiros ou procurar desertores, querem entrar na casa. A mãe fica nervosa, chora de desespero. “Desertor”, a gêmea expressa e se apressa pra fora. “Vai me dedurar.”, balbuciei. “Não faça iss...”, começa o irmão indo atrás dela que volta e lança: “Corre pras árvores!”. Eu não penso duas vezes, corro para o terreno e subo na primeira, passo pelos galhos pra segunda e vou até o fundo. Quando chego à última os soldados estão dentro da casa fazendo vistoria, procurando por mim. Depois procuram do lado de fora, não olham pra cima, vão embora. 
 

10º dia: Há soldados por perto, a cada hora vem uma ronda. Na minha nova moradia eu me ajeito. Monto uma rede, me trazem comida. Mas preciso ir ao banheiro. Passo de uma árvore a outra, leio uma versão traduzida de “Barão nas árvores”, no Kindle que a menina me emprestou. Não consigo mais segurar, estou apertado. Tiro pela primeira vez a veste militar, fico nu e de cima da árvore faço o que preciso. Sensação de liberdade. O menino me traz um short e uma camiseta que eram do seu pai, morto. Meus pés doem, deito na rede, a tropa volta. Não me veem. Alguns me chamarão desertor, como a menina a princípio. Choro, tenho medo.  O gêmeo e a gêmea se aproximam de mim. “Me recuso a lutar. Ah se todos se recusassem! O que fariam os dois chefões? Duelariam eles mesmos um com o outro?” Rimos, imaginando a cena. O rapaz e a moça tentam imitar os dois governantes lutando, com trejeitos desajeitados e exagerados. Eu quase caio da árvore de tanto rir. “Você é um herói” a gêmea diz deixando o irmão e a mim boquiabertos. “Sua esposa e sua filha vão ficar orgulhosas por ter se recusado a matar outros pais, filhos ou irmãos.” 
 

Sim, eu me recuso. E queria que todos se recusassem.