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A noiva fugida

Araraquara, SP. 1947.

 

Era dia de quermesse. Quando cheguei tocava uma de minhas músicas preferidas, do Luiz Gonzaga, que narrava o cenário perfeito para essa noite:

​

“Olha pro céu, meu amor

Vê como ele está lindo

Olha pra aquele balão multicor,

como no céu vai sumindo.

 

Foi numa noite, igual a esta,

que tu me deste o coração.

O céu estava, assim em festa,

porque era noite de São João.

 

Havia balões no ar,

xote e baião no salão.

E no terreiro, o teu olhar,

que incendiou meu coração...”

 

Ao som da sanfona, vários casais dançavam juntinhos, enquanto eu, engraxate, informante e correio elegante, sempre ficava incumbido de entregar os bilhetes dos enamorados. Confesso que lia alguns, escondido. Tinha coisa bonita, e até alguns bilhetes que tenho certeza, como os adultos dizem, não eram para minha idade. E me divertia com cada coisa engraçada que só vendo, como as quadrinhas do Pedro:

​

“Quem tão alto quer subir,

às nuvens quer chegar.

As estrelas ficam rindo,

do tombo que vai levar!”

 

“No alto daquele cume

Tem uma linda roseira

Quando a chuva no cume cai

A rosa no cume cheira.”

 

“A primeira vez que te vi

Quase morri de ri

A segunda vez que te vi

Montei no burro e fugi.”

 

Naquela noite, às oito horas em ponto, tocou o sino. Durante as badaladas, percebi um vulto de mulher descendo a escadaria da igreja e deixando um sapato dourado e brilhante que havia acabado de soltar de seu pé. Gritei pela moça, mas ela não pareceu nem um pouco interessada em parar nem pegar o que perdeu, desaparecendo logo de minha vista e roubando a atenção de muitas pessoas na quermesse. Ela sumiu. E não é que era a moça pra quem eu havia acabado de entregar um dos bilhetes? O que será que havia acontecido? Vi o padre se aproximando e interrompi meu pensamento para guardar o sapato no caixote antes que ele pudesse ver.

​

- Oi padre. Viu na igreja uma moça de vestido azul?

 

- Vi sim, menino. Ela orava para Nossa Senhora Desatadora dos Nós. Venha, vamos ver a quadrilha. – Encerrou o assunto se apressando para seu momento preferido.

 

Agradeci o convite, mas permaneci ali, entregue a pensamentos que resolvi compartilhar com meu amigo boizinho de chuchu, o Reizinho:

​

- Uma vez ouvi da minha mãe que ela não teve graças da Maria Desatadora que promove a reconciliação das famílias e concede graças aos casamentos. É isso! O bilhete que era para a moça de vestido azul dizia: oito e meia na estação. É para lá que nós vamos.

​

Porém, quando fui sair da quermesse, no meio da turba, topei bem com a dona Conceição que bloqueou minha passagem com seu corpo grande e disparou a falar:

 

- Moleque, estou injuriada. Você viu aquele carro amarelo, novinho e brilhante que parou aqui? Desceu uma moça linda, rica, que me encomendou o bolo de casamento...

 

- Vai ter casório? – questionei, interessado.

 

- Vai! E justamente a noiva, da família Dutra, família educada, acabou de passar correndo e nem mesmo falou comigo, você pode acreditar?

 

- Ai... Desculpe dona Conceição. Estou com dor de barriga. Preciso ir. Até logo! – e saí deixando-a resmungar:

 

- Menino mal educado, nem me deixou acabar de falar...

 

As minhas novas botinas me permitiam correr bem mais rápido. Afoito, cheguei à estação a tempo de ver a moça! Epa! Ela mais o Ari, filho do farmacêutico, abraçados e indo embora juntos! Foi reparar nos dois que o apito do trem anunciou a partida do casal.

 

De volta à quermesse, ouvi da dona Conceição que o mesmo carro amarelo, novinho e brilhante voltou para buscar a moça. Teve gritaria e empurra-empurra, mas não encontraram a dita cuja. Já o próprio noivo subiu no coreto, e chamando a atenção para si gritou para todo mundo que quisesse ouvir que não haveria mais casamento, muito menos bolo!

 

O acontecido foi assunto na cidade para mais de uma semana. Só espero que a Maria dos Nós conceda muitas graças ao casal apaixonado. E o noivo abandonado? Que Maria Desatadora aja sobre ele também, porque deve ter não um, mas dois enormes nós pontudos em sua cabeça. Hehehe.

​

...

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Esse conto faz parte da coletânea "Sobre brilhos e graxas".

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