Zé Guilherme tem origem caipira, nascido em Araraquara, interior de SP, em 1991. Mas seu trabalho atravessa os limites de espaço, sendo um artista cosmopolitano, e com muito orgulho, latino-americano. Escreve ficção, teatro e tem experimentado a escrita audiovisual. Suas comidas favoritas são pizza, hamburguer e o clássico arroz e feijão. O esporte é natação. Aliás ama água, chuveiro, rio, piscina, mar, tanto faz. Pessoalmente, canceriano com ascendente em Capricórnio, lua em Capricórnio, muitas coisas em Leão, mas não carnista, vegetariano.  Fã dos poetas e romancistas beatniks e fortemente inspirado por Walt Whitman. Para escrever tem um ritual: pega o notebook, as anotações, uma garrafinha de água, abre as janelas e coloca música, cada vez é um estilo diferente, que tem a ver com a atmosfera do que está escrevendo. A música é um importante gatilho para a escrita de Zé. Bom também ter uns petiscos para não interromper o fluxo da inspiração quando ela vem. É isso, por enquanto! Bem vindo, bem vinda e bem vinde ao site do selo Menino Andante.  

Cartas do autor

20/12/2021 - Brotas/SP

Eu tô com mania de eletrizar o corpo...
Walt Whitman canta o corpo elétrico em seus versos, e eu sempre quis deixar meu corpo assim, eletrificado. Lia, relia, e pensava em como fazer pra potencializar essa eletricidade. O corpo já é elétrico. Sabe a eletricidade que dá vida pro corpo em conexão com o espírito? Ela existe, certo? Mas eu queria alta voltagem. Electric feel. Sensação elétrica!
Tive um ano pesado. Perder um pai é pesado. Ver pessoas perdendo familiares e amigos é pesado. Receber ligação da minha amiga-irmã porque ela também perdeu o pai é pesado. Foram tantas angústias, estresses, problemas que às vezes eu me pergunto se mereço dar good vibes pro meu corpo. Olha o que me vem à cabeça: deveria fazer isso enquanto tenho pessoas muito próximas que não podem fazer a mesma coisa? Eu dou aula de teatro para pessoas com deficiência intelectual e múltipla, e muitos de meus alunos tem limitações cognitivas por paralisia cerebral. Colocar meu corpo em risco, em atividades radicais, com intuito de ampliar minhas sensações, enfrentar medos e me aventurar, enquanto tenho um aluno que caiu na piscina e seu corpo sofre diariamente é irresponsabilidade com meu instrumento e as pessoas de meu entorno? 
Ou é ser grato pelo que posso fazer nessa vida? O que foi permitido pra mim nessa passagem... 
Eis minha angústia. Isso dá sapo na garganta, digo, pensar nisso. 
Assim é com aventura, assim é com sexo, identidade, assim é com paixão, empreendimento. Tenho direito? Posso ter sucesso? Como admiro as pessoas que não estão pensando nos riscos, apenas vão lá e se jogam no rio, seja ele qual for. Uma amiga, a Diana, me mostrou um trecho de uma palestra do Karnal, em que ele diz: 
“Quanto mais eu envelheço, mais eu tenho medo, quanto mais eu tenho medo, mais eu tenho consciência do mundo... A consciência nos torna covardes.”
Pessoas inteligentes vão dizer: tem que ter cautela, preservar a vida, fazer as coisas com segurança, verificar se tem pedra no fundo, e a profundidade. Mas mesmo com todos esses checks o risco ainda existe, e não só ao pular no rio, mas ao sair na rua, ao descer da cama. Posso rolar de uma mureta pra calçada e da calçada pra rua por uma distração (né Paulinha?). Nisso nada pode acontecer, como posso ralar a perna. Como posso trincar o tornozelo e ter dificuldade de andar de um pulo besta em baixa altura (como a Neila). Em qualquer lugar, em qualquer hora. Os inteligentes voltam a dizer: mas procurar pelo risco é diferente do acaso acontecer. E é. É mesmo! 
Mas a ideia aqui é eletrificar o corpo!  Estou reaprendendo nas aulas de eutonia da minha amiga Neila, a mesma Neila do pulo besta, a reconhecer meu instrumento, a tocar o meu cavalo, e notar cada sensação de cada parte dele. Tente. É viciante! Se jogar no rio é viciante. Um novo amigo foi que me levou, foi comigo, se animou. Tem um exercício de teatro que diz, “se estou no rio, eu sou o rio”. Esse rapaz está sempre no rio, “ele é o rio”, foi o rio que passou pela minha vida nesses dias em que eu tava querendo alta voltagem.
“Não posso definir aquele azul
Não era do céu nem era do mar
Foi um rio que passou em minha vida
E meu coração se deixou levar”
Foi indo pro rafting noturno com duas amigas que li esses versos de Paulinho da Viola pintado na parede. E era o retrato perfeito dele, o menino-rio, de 15 anos. Ele que deu 6 ou mais saltos na bacia (nome pra um poço formado abaixo de uma queda d’água forte e violenta) enquanto eu assistia lá do alto, sentindo a força do rio nas pernas, na minha cautela dos 30 anos. Ele que me deu segurança pra pular da ponte no rio Jacaré Pepira uma, duas, três, “Vamo mais uma pae”, quatro, “Pensei que ia mais uma. A última.”, cinco vezes. O medo foi intenso, a pele se alarmando, a voz do meu pai dizendo “vai, filho, pode ir”, o coração pulsando. Pulei, enfrentei, mergulhei, emergi. O rio levou meu relógio que marcava os batimentos cardíacos, mas deixou meu corpo elétrico!

04/09/2021 - Caldas/MG

Há 6 meses atrás meu pai desencarnou, vítima da covid-19. Eu, minha mãe, minha irmã e meu companheiro sobrevivemos. Algumas sequelas ainda estão presentes para nós. Meu sintoma mais desesperador foi ficar sem olfato e paladar, esses sentidos que tanto nos preenchem. Sem eles dá uma sensação de vazio em nosso ser, já que somos meio bichos. Você pode conhecer meu pai, se quiser, que se despediu da Terra nos convidando a não ter medo de tentar. Clique aqui para assistir Íkaros. Ele voou. E nesse tempo de meio ano minha irmã conseguiu um estágio na área de enologia aqui onde estou, viemos buscá-la de volta, concluiu e está prestes a se formar. Meu pai deve estar orgulhoso, já tinha muito orgulho da filha se fazendo cientista de alimentos. Ia gostar daqui também. Terra bonita, clima bom. Daqui de Caldas registrei vários cenários que começam a alimentar uma nova ideia de ficção... Mas isso é assunto pro futuro, quando ele vier. O encaminhamento é que nesse tempo corrido de meio ano eu terminei meu primeiro roteiro de longa-metragem, Hecatombe, adaptação homônima de uma peça que comecei a escrever em 2015 e estreou em 2018. E agora aspiro a produzi-lo. Veremos. Todo passeio, viagem, caminhada serve pra criar movimento. Vá você também andar, e verá! Que essa vinda pra cá gere bons ventos.

25/02/2021 - Araraquara/SP

Hoje é dia de confinamento. Febre, dores, suspeita, cuidado. Você já deve ter passado por por isso. Porém aqui na minha cidade enfrentamos uma complicação e aumento de casos de enfermos do COVID19, vírus que se espalha no mundo todo desde o início de 2020.  Ontem na UPA, presenciei uma enfermeira anunciando a um rapaz sobre o isolamento de sua mãe, a necessidade de internação e a falta de leitos (tinham 17 pacientes na frente esperando). E essa situação toda só me fez pensar o quanto realmente precisamos nos cuidar, cuidar uns dos outros. E meu jeito de fazer isso é escrevendo histórias. Você já se sentiu cuidado, renovado, mais animado, depois de ver, ler, ouvir alguma história? 

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José Guilherme (1991-Araraquara/SP). Foto: Andréa Palu.